A Crônica da Voz Que Não Queria Companhia

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a voz que não queria companhia

Era uma vez uma cantora que parecia ter sido agraciada por todas as musas da música. A voz dela era o tipo de coisa que se diz: "Ah, é natural, nasceu pronta." Amigos, familiares, maestros e até o entregador de pizza soltavam elogios. Era uma voz que fazia vibrar almas e tilintar copos, mesmo quando ela só dizia "obrigada". E claro, ela sabia disso. Sabia tanto que nem se dava ao trabalho de ir a todos os ensaios do coral que frequentava — "Dom é dom, e prática é coisa pra quem não tem um", dizia com o ar de quem revelava uma verdade universal.

Nos ensaios, ela sempre brilhava. Afinal, as músicas eram conhecidas: inglês, português, algo fácil. Chegava no meio da segunda repetição e já estava em condições de corrigir o tenor desafinado. Isso funcionava até o dia em que o maestro, cheio de empolgação cultural, anunciou: "Teremos um projeto especial! Um coral da ilha de Java virá nos visitar e... cantaremos juntos!"

Ela ouviu "Java" e já pensou em café. “Uma ilha tão pequena? Vai ser moleza!”, disse para si, imaginando que cantariam algo fácil, tipo música silábica, com um "la-la-la" aqui e outro "dum-dum-dum" acolá. Mas o canto javanês, meus amigos, não tem nada de moleza. Quando ela finalmente assistiu à apresentação deles no YouTube — na manhã do dia do ensaio geral, é claro — descobriu que eram mais de 20 vozes polifônicas, um idioma cheio de fonemas que pareciam trava-línguas e, pra coroar, performances cênicas que incluíam simulação de rituais e batidas nos próprios corpos. “Povo criativo, mas exagerado”, murmurou, já buscando seu batom favorito.

No dia do ensaio geral, chegou maquiada, cheirosa, com aquele ar de diva que espera aplausos mesmo antes de cantar a primeira nota. Só que o clima era outro: maquiadores estavam pintando tatuagens de hena nos cantores para simular a estética do coral visitante. “Mas isso vai cobrir a minha beleza natural!”, exclamou, indignada. “Você ainda vai brilhar”, disseram, enquanto desenhavam um guerreiro tribal no braço dela. Ela suspirou. "Pelo menos ainda tenho minha voz."

Foi quando entrou no palco e percebeu o tamanho do problema. Polifonia por todos os lados, percussões corporais ensurdecedoras e um idioma que parecia ter sido inventado só para confundi-la. Ela não conseguia nem acertar o dung, quanto mais o dang-dung-dang. Revoltada, começou a disparar críticas: “O maestro tá desorganizado!”, “Esse coral de Java inventou isso ontem, certeza!”, “O cara do meu lado tá cantando errado e me atrapalhando!”.

Duas horas depois, com maquiagem borrada e o ego arranhado, decidiu que aquilo era indigno de seu talento. Após o concerto — que foi um sucesso, mas claramente sem a contribuição dela — o maestro a chamou para uma conversa séria. Com a delicadeza de quem desfaz um contrato sem causar um escândalo, disse: “Você tem uma linda voz, mas nenhum conjunto funciona sem disciplina. Estou dispensando você do coral.”

Ela saiu furiosa, dizendo que música “de tribo” era inferior e que sua alma artística era muito livre para se sujeitar a regras. Tentou cantar sozinha, mas percebeu que karaokê não tolera improviso e músicos têm pouca paciência para acompanhar alguém que ignora compassos. Sobrou o espelho. E foi cantando para si mesma, admirando a própria beleza e voz, que sua música foi murchando. Sem repertório, sem plateia, sem eco, sua voz definhou até desaparecer por completo.

Hoje, não canta mais. Se libertou do próprio talento e diz que foi uma escolha artística. “Minha voz é um tesouro tão precioso que o mundo não merece ouvi-la”, explica, enquanto serve café com ar de mártir.

Moral da história: Uma voz bonita pode até impressionar, mas sem disciplina, não encanta ninguém. Afinal, o narcisismo pode ser uma melodia agradável — mas só para quem canta sozinho. E o silêncio é sempre o último aplauso do ego desmedido.

Comentários

  1. É, acredito que ainda hoje em dia, onde existem celebridades de quinze minutos, tem gente que se acha muuuito! Infelizmente! O trabalho em grupo, o pertencer a um grupo é muito recompensador!!! Só quem realmente vive ou viveu essa experiência sabe o que quero dizer.
    Tenho um diretor musical que além de maestro é escritor!!! Tenho orgulho de fazer parte do nosso coral Choir at Home!!!👏🏻👏🏻👏🏻

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