O Anjo de Roma e o mal-entendido entre gostar e saber
O Anjo de Roma e o mal-entendido entre gostar e saber: o que a voz de Moreschi nos ensina sobre estética e técnica Há alguns dias, num vídeo em que analiso a voz de Alessandro Moreschi — o "Anjo de Roma", último castrato da história e o único registrado em gravação para que pudéssemos, mais de um século depois, ouvi-lo — recebi um comentário que resumia bem uma reação comum a essa gravação: estranhamento, repulsa, e a conclusão de que aquela voz não tinha valor técnico algum, quase como se qualquer pessoa sem preparo fosse capaz de produzir o mesmo resultado. É uma reação compreensível. Também é, tecnicamente, um equívoco. E é esse equívoco — comum, recorrente, quase estrutural na forma como ouvimos música — que quero desenvolver aqui. O estranhamento tem explicação histórica Antes de qualquer coisa, vale reconhecer: a estranheza diante da voz de Moreschi não é irracional. A estética vocal que ele representa simplesmente saiu de moda. Na virada do século XIX ...